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Se dispa para mim

Por que foges do meu braço, enlaço, abraço?

Calma

Teus beijos, tua fuga

Meu apego, teu desespero

Tua fome, tua força

Quando menos define, mais presente és

Mais te sinto

Falamos pouco

Descobrimos aos poucos

Tiramos a medida do que falta

À medida do que excede

E não encontramos parâmetros

Só paramento

Que esconde, que cobre o que somos

E seguimos desconhecidos

Nus…jorrando desejos e

Cobertos de camadas impermeáveis

Nada entra, nada sai

Desculpa se te faço mal

se sinto pouco

se meu movimento não te atenta

por não te fazer sentir sentidos

por não me atravessar por seus olhos

por te buscar em ti e não no que me falas

por meu toque apressado, silencioso, falho

Des culpa

Diz culpa

Se diz  culpa

Se cul pa  

Se dis pa pra mim!

AoMAReu

Na tua presença calo o sentir e o pensar, quando sinto e penso

E fico remoendo, remoendo, remoendo

As palavras não ditas corroem o meu âmago, minuto a minuto

E não durmo, nem me aturo

Há dias quero que sintas, para que eu não diga

Para que o encanto do casual não se quebre

E o amanhã não seja uma sombra do que passou

Teu olhar me comove, quero mergulhar nele a cada instante que estou com você

Mas não sei como…

É como uma onda gigante no mar, que me magnetiza, atrai, mas ao mesmo tempo me repele e me faz tão pequena que chego a achar impossível alcançar, penetrar

 Na calmaria do continente, um enorme plano para descanso e contemplação

E com o qual também não consigo lidar…

A areia voa com o vento e foge de mim. Passa por minha pele, com pressa

Machuca e joga meu corpo para o mar novamente

Onde repousa a onda forte, assustadoramente atraente

Tento balançar sobre ela, dançando o seu movimento

E ela quebra

Como quem diz:

“Se pretende me alcançar, desfaço-me em espuma. Não seremos nós, serei eu, somente, e será você, simplesmente”

De repente, ela retorna ao mar, em uma imensa solidão. E eu, aqui, à espera de novo balançar.

sOPaLaVRas

Olhar

                Sentir

                               Tocar

                                               Viver

                                                               Voar

Andar

                Repetir

                               Olhar    

                                               Ressentir

                                                               Retocar

                                                                               Reviver

                                                                                              Revoar

Correr

                Dizer

                               Amar

                                               Iludir

                                                               Assistir

                                                                               Virar

Parar

                Recorrer             

                               Desdizer

                                               Desamar

                                                               Desiludir

                                                                               Desassistir

                                                                                              Revirar

MUDAR

Um

Caí. Mais uma vez descobri, trouxe à mostra

Despertei em incertezas, inseguranças. Olho em volta e não encontro sombras.

Só a luz da solidão, implacável, a segurar minha mão, a sorrir traiçoeira como quem diz sou sua melhor parceria e pior companheira.

Do chão enxergo a imensidão que está acima. Desapego de mim, dos erros, das dores e pudores.

Movimento o olhar em direção ao som do coração, o pulso forte, compassado, digo vai, levanta-te, anda, corre, corre, sai de ti, mas não te esquece, não te abandona.

Acolhendo a vida: a sua e a do próximo

Estamos no mês dedicado à prevenção ao suicídio. A campanha ‘Setembro Amarelo’ existe há seis anos no Brasil e faz alertas importantes sobre as relações humanas e a maneira como lidamos com nossas emoções. É uma tarefa árdua porque raramente paramos para avaliar nosso estado de espírito quando o cotidiano nos empurra ao cumprimento de atividades necessárias à sobrevivência. O trabalho que ocupa longas horas do nosso dia a dia, as atividades domésticas, a espera no ponto de ônibus e o tempo de cada viagem, a atenção aos filhos, família, conserto de carro, reforma da casa, trânsito, contas, boletos, projetos para alcance de metas financeiras, desemprego…tudo ao mesmo tempo e sem um único intervalo para respirar.

O desafio não é parar o tempo ou o cotidiano para buscar o bem estar, mas reconhecer-se capaz de identificar o que te faz feliz, triste, chateado ou frustrado, cansado ou revigorado, o que é importante e o que é necessário e quando e como fazer cada coisa no seu tempo e ritmo, conforme sua escolha e arbítrio.

Acolhendo e entendendo o que se passa com você nesse carrossel de emoções, o próximo passo é enxergar o que se passa com quem está ao seu lado. Aceitar que o tempo e modo de ser de alguém é diferente do tempo e modo de ser do outro e perceber que a alegria de um pode não ser a do outro. Assim como a tristeza de um pode passar rápido, a do outro pode levar a lágrimas frequentes e dores insuportáveis. A emoção é a mesma, mas a forma como se sente tal qual o motivo pela qual é despertada, não. Já o desejo de ser e estar bem é comum a todos.

A todo instante e em qualquer circunstância buscamos somente o êxito como sinônimo de felicidade. Para as contrariedades, o lugar do evitável. Como se fosse possível atravessar um rio sem se molhar, ou chegar no topo de uma escada sem ter pisado degrau por degrau.

Somos imersos em um jogo onde a próxima fase é sempre a mais difícil e nunca há um final com a recompensa porque aprendemos que o sucesso só vem quando todas as etapas são cumpridas. Mas, e o processo? E a simples decisão de não jogar? Uma vez no jogo, seguir ou parar? Observar e aprender? Avançar e recolher? A cada dia e em cada atividade que realizamos aceitamos dialogar com a vida. E não estamos sozinhos. O diálogo se expande com cada pessoa que encontramos no trabalho, no mercado, na padaria, na rua, no ponto de ônibus, na sala de espera de um consultório médico, na fila do banco, na família.

Tão pouco conseguimos elaborar projetos e metas de vida sem a troca ou o mínimo pulsar de relação humana. Pense por um instante, no exercício de atividades cotidianas, com quantas pessoas você se relaciona e o quanto do que você usufrui é fruto de uma ação humana? É possível sermos um sem o outro? É possível sermos humanidade sem atentarmos para o que cada um é, sente e realiza?

Mais do que prevenção ao suicídio, o setembro amarelo nos desperta para sermos melhores como humanos. Melhores conosco e melhores com os outros. O cuidado com um é o cuidado com todos. Regras simples do jogo da vida: olhar no olho, reconhecer o outro como um sujeito de direitos igual a você, ser e deixar ser. E os alertas de um caminhar mais saudável: quer ser ouvido, escute; quer ser respeitado, respeite; quer ser amado, ame. A vida é acolhedora, nós também devemos ser!

10 de setembro – Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio

Por um instante

Fecho os olhos. Sinto o forte vento fresco e o sol de agosto na minha pele. O som e o cheiro do mar em uma tarde na varanda de madeira de uma casa em Atalaia. Piso a areia morna e sigo em direção a água. Também é morna. O mar de fim de tarde é agitado. A maré quer e vai subir. Para repousar precisa se expandir. Então as ondas se encontram, entrecruzam, à direita, à esquerda, à frente. Brincam até cansar, até (des)cansar.

Brinco com elas. A água salgada em contato com minha pele quente arde leve e repousa, penetra nos poros, vasos e coração. Dos pés à cabeça passeia em perfeita sintonia, provocando circuitos, emanando energia que retorna ao mar e do mar volta para mim. Trocamos, levo o balançar das águas e o sal comigo, deixo pele, sorrisos e gratidão com ele. A noite cai.

Retorno, abro os olhos. O mesmo sol de agosto na pele, céu azul e um vento fresco vem me visitar em uma manhã na varanda de vidro de um apartamento de uma cidade sem praia. Piso no porcelanato frio, poucos passos e o corpo procura por trocas. O vento provoca. Ora forte, ora leve, ora longe. Passeia, brinca até cansar, até (des)cansar.

Sem nuvem, o sol não descansa. Mas o contato com a minha pele é profundo. O calor entra provocando circuitos e curtos. Um pássaro, não sei identificar qual, canta, chama…será se conversa comigo? Será que lamenta tanto concreto em volta?

Meus olhos o seguem, minha mente brinca com ele. Brinca até cansar, até perdê-lo de vista e (des)cansar.  Fecho os olhos novamente. Não há areia, não há mar, não há vento a beijar-me a face. Abro os olhos e procuro desesperadamente esse lugar. O pássaro…o sol também já não há.

Resta o espaço quadrado de uma varanda de vidro. Fria, silenciosa, solitária. Não preciso mais fechar os olhos. A luz apagou, mas tudo continua visível dentro e fora daquele lugar. Do lugar que cada um constrói para manter-se firme. Dos pés à cabeça, circuitos vibrando em curtos espaços de sentir.

Sinto agora o cheiro de comida chinesa, talvez o cheiro de carne queimando no óleo. Pode ser qualquer tipo de comida. E pode vir de qualquer lugar de fora. Fecho os olhos. Respiro fundo. Sim, estou com fome. 

O tempo diz

O tempo me trouxe um recado

Apontamento de encontros negados

De abraços não dados

E o beijo apenas sonhado

Os afetos perdidos

Na cronologia do dia a dia atarefado

No egoísmo das horas que sugam a existência

E o querer

O tempo vem lembrar

Da alegria não permitida

Da liberdade tolhida

Da dor mal sentida

Que o sorriso sem graça fez desparecer na roda das ilusões

O tempo vem dizer em alto e bom som

Que as lembranças são resquícios de um tempo que insiste em faltar

Que as escolhas que fazemos constroem o tempo que temos

Ainda há tempo?

Tempo de sobra

Sobra de tempo antigo abrindo tempos novos. Resta tempo para um novo tempo?

Novos tempos

O abraço largo que cabe o mundo

Dizer que nascemos da barriga de uma mulher é fato.

Mas acho que nascemos mesmo é do coração, do olhar, do peito (que amamenta), da voz doce e atenta que já chamava por cada um de nós quando a gente nem existia.

Sim, porque as mães nascem bem antes dos filhos chegarem ao mundo. Nascem do pensamento, do desejo e da escolha de serem quem são.

Quando as encontramos seus braços formam laços que embalam, dançam a força de amar, de proteger, de ensinar, de repreender e de se derreter.

Braços que criam abraços de tamanho único para toda e qualquer idade. Neles cabem nossas dores, tristezas, alegrias, nossos sonhos, medos e estripulias.

Cabem o mundo de sabedoria e aprendizado. Com esses laços aprendemos, por exemplo, que amar é, especialmente cuidar. De perto ou de longe, o cuidado de mãe nos mantém seguros e dispostos a seguir, sempre em frente.

São muitos laços e diferente abraços. Há abraços que confortam sem nem ao menos tocar. Há aqueles que prendem, há os que são mais, digamos, maleáveis, e há os que libertam. Em todos os níveis e modalidades, o comum dos afetos de mãe é a força geradora de vida e amor.

No abraço de mãe nos largamos no mundo. Profundos e largos, seus braços abarcam e acalmam. Somos parte dela, olho, peito, boca, coração, respiração, pensamento, desejo, realização, cuidado!

Cuidem! Feliz dia para a figura feminina que gera a vida!

Dedico esse texto, em especial, aos filhos e mães que em função da pandemia do novo coronavírus não conseguiram realizar o desejo de um último abraço.

2020 até aqui

É, você chegou e tudo parecia permanecer no mesmo lugar. Festas, fogos, desejos sinceros de paz, amor, dinheiro no bolso…carnaval, todo mundo na rua, brincando, bebendo, dançando, confraternizando. A violência, os assaltos, as vozes uníssonas por respeito às minas, aos minos que são minas e às minas que são minos e a todos os corpos que são minas e minos, respeite o NÃO, respeite o outro.

Mais uma festa popular como só o Brasil sabe fazer, em todos os cantos e em diversos tons e modalidades, inclusive religiosas e silenciosas. Havia mais do que nunca a vontade de tomar às ruas diante do receio de que a festa fosse proibida, podada pela nova ordem política conservadora que se estabeleceu aqui nos trópicos da América do Sul.

Fomos às ruas e a alegria estava lá. Os abraços, os beijos, a música, a dança, a poesia, o rebolado para todos os gostos e liberdades. Tudo igual, até os protestos políticos e sociais, afinal é carnaval e quem conhece a história sabe que essa folia é, desde o seu início, um grito social, uma expressão de liberdade, um coletivo espontâneo de criatividade, com cores, sabores, amores, corpos e sentidos, reverberando alegria ricamente compassada.

Carnaval, e o que viria depois? Terminada a folia, retomaríamos nossa rotina cronológica do seu tempo, 2020. Mas outros planos se fizeram imperiais. Antes da chegada de Momo, uma notícia vinda de longe, rumores distantes de um novo vírus na China, um tipo de Corona. Achávamos que o problema seria pontual, de uma cidade, em um país distante. Brasileiros que moravam nessa cidade, foram trazidos de volta, ficaram isolados, em quarentena.

Enquanto os observávamos, torcendo para que estivessem bem, enquanto olhávamos pelo buraco da fechadura (nós e outros iguais a nós), o vírus abria janelas e portas pelo mundo afora. Aeroportos, portos, fronteiras terrestres…rapidamente atingiu o mundo todo.  Nenhum dos brasileiros espiados em quarentena foi diagnosticado positivo para Covid-19, doença causada pelo novo vírus.

Respiramos aliviados e apreciamos a folia despretensiosamente. Março chegou e a cada dia que passava, mais perto de nós o corona vírus chegava. E logo se instalou sem que identificássemos mais de onde e como se deu o contágio. E tudo está interrompido: atividades escolares presenciais, comércio, shows, cinema, teatro, academias, cultos religiosos, qualquer atividade que gere aglomeração de pessoas. A ordem é ficar em casa.

Nada de abraços, beijos, o simples dar-se às mãos é um risco à saúde. Entramos em abril e as orientações de distanciamento social continuam. Médicos e cientistas correndo contra o tempo para encontrar tratamento para a doença e vacina contra o vírus. O número de doentes e mortos continua crescendo e a perspectiva é de alguns longos meses nesse ritmo, ou pior. O vírus causa complicações pulmonares graves e o sistema de saúde não comportará se todos adoecerem ao mesmo tempo, ou seja, muitos mortos por falta de atendimento, ou equipamentos médico-hospitalares. O mundo todo se curva a essa realidade.

O peito dói, falta-nos ar, de fato. Enxergamos refletidos no medo a nossa precariedade como seres humanos e os erros das nossas escolhas políticas, sociais e econômicas. Tudo vem fortemente exposto na espiral do tempo. Na sua espiral, 2020.

Fiz alguns pedidos a ti, lembra? Pedi que fosse forte, que ampliasse nossas virtudes, que fizesse com que nos reconhecêssemos como irmãos. Pedi também que ampliasse a nossa capacidade de sermos um em todos e todos em um. E o fizeste. Bem cedo, aliás. O ciclo anual que nos apresenta é desconhecido, tudo saiu do lugar e cada um está reagindo como de fato é, ou como pode ser. E, talvez, novas formas de convivência, estilos de vida e valores surjam a partir desse momento. Acho que esse é um pedido seu.  

Continuo desejando que seja feliz, 2020. Você foi bem-vindo, chegou e teremos que lidar contigo com a mesma intensidade, porém com mais reflexão, empatia, senso de responsabilidade social, cuidado consigo e com o outro, o próximo e o distante. Cuidado com a natureza, que tanto nos ampara e alivia, permitindo que simplesmente respiremos, leve ou profundamente, distraída ou conscientemente.

Por enquanto, já deixastes lições importantes. Do básico da higienização, passando pelo reconhecimento da necessidade de um sistema de saúde eficiente e para todos, pela importância da ciência e da comunicação, até a percepção de que uma guerra, com toda sua devastação, pode ser contra algo invisível e não bélica. O invisível, aliás, é a tônica desses dias e a lição do afeto o maior desafio da humanidade.

Bem-vindo 2020. Seja feliz!

Tu és como o próximo trem, ou a próxima parada. Onde a gente embarca ou desembarca com os pés firmes, sem medo. Mãos em riste e prontas para labuta, mas também para oferecer ou pedir ajuda. Com o coração aberto para novos e renovados desafios. Olhos vivos, presentes, falantes…mesmo fechados, esperançosos de outro amanhã, de uma nova luz.

És muito esperado 2020!

Por favor, mantenha o medo no lugar que lhe cabe, sem protagonismo frequente. Priorize a fé, o amor, a paz, a caridade, a empatia…Multiplique-os em vinte vezes vinte, a tua numeração, repetida, enfatizada, marcada, ampliada.

Amplia as gargalhadas sinceras, os abraços afetuosos, os beijos doces, o toque de mãos, os amigos, os amores, as realizações, o trabalho, a comida, a esperança…a música, a dança, o sentir e expressar.

Venha 2020. Seja forte, generoso, amável! Que o mal diminua diante do seu poder amplificador de virtudes, e que nos reconheçamos irmãos. Nós, humanos, irmãos de ti, o tempo. Que chega e parte numa espiral que faz dançar e reverbera o que somos e o que fazemos. Estamos entranhadas na mesma teia que se renova, que se transforma a cada respirar, a cada abrir e fechar de olhos, dia a dia do ciclo de 365.

O novo é hoje, é daqui a pouco, é amanhã, depois de amanhã, e depois e depois e depois de depois. O novo acontece um dia atrás do outro há mais de dois mil e vinte anos. Novo repetir de números, repetidas vezes, novos anos.

Feliz dia, 2020!

…e o corpo era de um cachorro

Um alívio. Não que um cachorro morto jogado em contêiner de lixo não incomode, afinal, além de não ser o descarte correto para o corpo do animal, ele também pode ter sido atropelado ou morto por maldade, mas não posso deixar de dizer que senti alívio por não ser o corpo de homem.

Na tarde da descoberta do corpo, a informação se espalhou na quadra e a curiosidade e perplexidade tomaram conta das conversas. E os personagens do fato tomaram protagonismos diferentes, desde os policiais que atenderam a ocorrência até a figura extrovertida do manobrista do comércio da região, a reação de cada um provocou em mim uma curiosa observação.

Mulheres na porta da loja

Ao andar pela quadra logo percebi o movimento, a presença dos policiais e alguma tensão. Achei logo que se tratava de um assalto. Aproximei-me de um grupo de mulheres e antes de perguntar o que havia acontecido, uma delas me olhou e disse “achamos um corpo no lixo”. E explicou que uma outra mulher foi jogar o lixo no contêiner e percebeu o mal cheiro. Movimentou um saco volumoso e logo disse que era o corpo de ‘gente morta’.

Assustada, só consegui pensar em como alguém colocaria um corpo em um contêiner de lixo sem ser percebido. Sim, porque o caminhão de lixo passava todos os dias pela manhã, portanto, os garis teriam notado e eles mesmos chamado a polícia ou o corpo seria triturado pelo veículo sem perceber. Mas a reflexão foi estancada pela convicção das mulheres e a tensão dos policiais.

Policiais

Eram dois, um homem e uma mulher. O homem andava nervoso, falava que as mulheres teriam que ir até a delegacia para depoimento. Elas se recusavam. O policial pouco explicava o porquê, preferiu se exaltar e fazer valer seu poder ‘de farda’, do tipo ‘eu falo e você obedece’. A proprietária da loja já disse que não poderia sair e se recusou. Ele então se voltou para uma funcionária, uma mulher de meia idade, com trajes simples. Ela também não queria ir, decisão tomada com a força da empregadora que discutia com o policial o fato de ela não ser obrigada a ir até a delegacia. “Eu preciso de testemunha. A senhora viu o corpo. E tem que me acompanhar até a delegacia. Se não os peritos não vêm aqui e vocês vão ficar com esse corpo, fedendo aí…”, dizia o policial em tom agressivo. “Quem ligou para polícia?”, alguém preguntou. “Foi ela, respondeu o policial apontando para uma senhora que falava ao celular, mas confirmava ir até a delegacia. “Então, pronto, ela que ligou, ela que vá”, disse a proprietária da loja. E o policial continuava insistindo com a empregada da loja, em tom ameaçador pediu para a policial que o acompanhava anotar o nome e a identidade dela.

Com medo, a senhora resolver concordar e ir junto.

‘A policial que o acompanhava’, falo assim porque o papel dela foi silencioso. Só fazia o que era ordenado pelo colega homem. Nem se aproximou para convencer as mulheres a irem para delegacia. Pensei, da duas uma, ou é alguém que se endureceu com a profissão e concordava com a abordagem, ou alguém que oprimida pelo machismo cotidiano resolveu se omitir, mesmo vendo mulheres acuadas pela abordagem. Ela não se manifestou ou faz coisa alguma.

Duas mulheres brancas

Enquanto o policial, um homem alto, pardo, alguns diriam de pele morena, outros negro, constrangia a mulher negra, que trabalhava na loja, a ir até a delegacia (na verdade, aquilo era quase coação), duas mulheres brancas se aproximaram. Não eram moradoras da quadra, estavam em uma das lojas do comércio local. Na tentativa de amenizar o clima tenso, disse às mulheres, coagidas pelo policial, que era só um depoimento, que não aconteceria nada com elas. “meu irmão é policial, não precisa ter medo, ele só quer que você vá a delegacia testemunhar”.

“Eu também tenho policial na família, e conheço bem como eles são”, disse outra senhora na porta da loja, de braços cruzados, voz firme e uma das que mais aconselhavam a amiga coagida a não ir à delegacia”

De repente, o corpo encontrado não era mais o foco dos meus pensamentos. Tentei ajudar, quase me oferecendo para ir à delegacia junto. Lembrei que não tinha almoçado ainda e logo a senhora concordou em ir e aquela discussão foi cessada.

O corpo no contêiner

Não quis me aproximar do contêiner, mas o mal cheiro estava mesmo forte. Com o acordo de levar as mulheres à delegacia para agilizar a presença de peritos fechado, segui em direção ao restaurante para almoçar. E lá, encontrei o manobrista da quadra comercial. Ele estava em dúvida se iria ou não ver o corpo. Perguntei se ele já tinha almoçado. “Não, melhor não ir lá, depois não consigo almoçar”, disse ele.

Depois de alguns minutos ele retorna e diz que não conseguiu ver porque a policial estava lá e tinha isolado a área, ninguém se aproxima.

Fui para casa e durante toda a tarde, só ouvi silêncio.

O manobrista

Passando novamente pelo local onde haviam encontrado o suposto corpo de um homem, encontrei o manobrista e, curiosa com o desfecho do fato, conversamos por alguns minutos. Ao me aproximar, ele logo anunciou: ‘mulher, o corpo era de um cachorro. Olha aqui a foto”. E contou empolgado a operação policial da tarde.

“Fecharam a rua, tinha viatura de polícia pra todo lado. A polícia inteira do DF tava aqui.  Só de helicóptero, eram 3. Corpo de bombeiro, até o delegado veio. O perito entrou no contêiner e logo balançou a cabeça. Quando vi ele balançando a cabeça já vi logo que não era o que a gente tava pensando”.

Em questão de segundos, todo mundo entrou nas viaturas e saiu, segundo o relato. Saíram todos com as respectivas vergonhas. “Despreparados”, carimbou o manobrista.

Eu, por dentro, um misto de sensações. Aliviada por não se tratar de um crime contra a vida humana, triste pela morte e descarte de um cachorro no lixo, satisfeita pela lição de vida dada ao policial arrogante e ao mesmo tempo, me divertindo com o relato eufórico do manobrista. Moro ali, passei a tarde inteira em casa e não ouvi nenhum sinal da presença de helicóptero ou barulhos de viaturas policiais. Acho que a operação foi bem menor do que ele anunciara. Mas não questionei. Quem conta um conto tem licença para aumentar um ponto.

Cenas cotidianas, vivência única.

Pela manhã, encostei no ponto do ônibus como de costume. Os dez minutos de espera me proporcionaram cenas amistosas como dois amigos conversando animadamente sobre mulheres, nem tom, nem palavras agressivas. A distração da espera foi interrompida com a chegada de um adolescente, 15, 16 anos no máximo. Um menino de chinelos, bermuda no joelho e camiseta folgada. Tinha um papel em mãos e olhar perdido.

Olhava de um lado e do outro, procurando encaixe entre os que ali estavam. A aparência dele e sua cor de pele o colocava no rol de suspeitos da marginalidade no padrão sociedade hipócrita e ignorante na qual me insiro. O primeiro pensamento é “ai meu Deus, será que ele tá procurando um celular para furtar”. O pensamento logo desapareceu quando ele se aproximou de um rapaz e perguntou “passa ônibus do Cruzeiro aqui?” “Cruzeiro? Sim, passa”, “Quando passar o senhor me avisa?”

Eu estava bem perto dos dois, mas parecia invisível. Por alguma razão, ele não se dirigiu a mim para pedir ajuda. E pensei que, talvez, ele já tivera sido rejeitado por mulheres em situações parecidas. Somos mais vulneráveis à violência e em muitos casos, recuamos rapidamente de aproximações suspeitas. Foi meu primeiro momento de compaixão. Percebi que apesar das roupas e da postura indicarem agressividade, seus olhos e seu tom de voz, indicavam uma passividade constrangedora.

O rapaz para quem ele pediu ajuda, seguiu seu destino. Entrou em um ônibus e não disse uma palavra ao menino. Nada do tipo “olha meu ônibus chegou, não é Cruzeiro. Vou embora, veja se outra pessoa pode te ajudar”, assim com outras palavras, uma satisfação seria muito bem-vinda. O menino reagiu com um desespero contido, o olhar dele se dividiu entre buscar o rapaz que prometeu ajuda, os ônibus que se amontoavam no ponto e as pessoas que ficaram. Imaginei a solidão dele naquele momento e senti compaixão pela segunda vez.

Estava quase me aproximando dele, quando ele novamente se dirigiu ao outro rapaz, o que conversava com o primeiro, minutos antes, e fez as mesmas perguntas sobre o ônibus e o mesmo pedido sobre o aviso.  Fiquei angustiada, não por ele não pedir ajudar a mim, mas porque tardiamente caiu a ficha ‘ele não sabe ler’.

Sua voz tinha uma vergonha que ia muito além de alguém que não quer incomodar, era uma vergonha como a de não se sentir pertencente àquele lugar e ao mesmo tempo precisar tanto dele. Lugar entendido como ambiente (um ponto de ônibus), lugar enquanto grupo social, e lugar enquanto pessoas. Senti vontade de chorar. Meu ônibus chegou e segui meu caminho para mais um dia de trabalho.

No caminho, refleti sobre muitas coisas, pensando naquele menino e de como eu o ajudaria se permanecesse no ponto de ônibus. Torci, recolhida na minha invisibilidade, para o ônibus do Cruzeiro passar antes do meu para que eu pudesse indicá-lo e ainda lhe dar um sorriso, olhar de alguém que confia nele. Pequenos gestos que ele não teve de nenhum dos rapazes com quem falou. Pelo contrário, o olhar deles era duro, desconfiado, quase um pedido para se afastar e um “eu aviso, mas preferia que você se virasse”. Talvez o fato de que o rapaz não soubesse ler nem tenha passado pela cabeça deles. Afinal, julgamos e o primeiro julgamento é “esse cara tá se aproximando para tirar vantagem, vou ficar esperto”.

Mas não tive essa oportunidade e fiquei quase que durante todo o trajeto de 20 minutos pensando em como a violência surge no comportamento das pessoas. Em como a dor de não saber ler pode se transformar em violência, porque ela é o grito de quem não argumenta, ou de quem não é compreendido, ou para quem tudo falta, principalmente, a atenção, o respeito, a dignidade.

Como o Estado falta e falha e como somos reprodutores dessa ausência. O pensamento naquele menino e a falta de informações sobre o seu destino sumiu quando outra cena surgiu. Já no último trecho da minha viagem ao trabalho, um homem para o veículo e pede informações para ajudar um homem cego a pegar o ônibus. O homem cego é simpático, entra agradecendo, falando em bom tom e com segurança.

É um homem jovem que ao sentar-se troca algumas palavras com uma senhora que o ajudou a sentar e puxou assunto. Na conversa diz que perdeu a visão total há pouco mais de 4 anos ao manusear, sem cuidados, soda cáustica. Compadecida, a senhora fala de “deslizes” da vida e começa a contar causos desastrosos de outros “deslizes”. O rapaz foi simpático, mas acho que a conversa não estava agradável, afinal, em vez de motivadora e resiliente, a senhora mais parecia um bedel a dizer “As pessoas não se cuidam, olha o resultado”.

A conversa com a senhora só serviu para matar minha curiosidade em saber como ele havia ficado cego, pois sua desenvoltura e segurança ao entrar no ônibus e passar pela roleta era de alguém que já havia visto a cor do mundo. O que, de fato, me fez mais uma vez refletir sobre o menino analfabeto do ponto de ônibus e a coincidência de encontrar cenas tão semelhantes em poucos minutos das primeiras horas da manhã.

Ambos pediram ajuda, ambos estão cegos. Um dos olhos, o outro da alma. Para ambos as oportunidades serão restritas, mas a falta de luz dá aos dois caminhos opostos. A falta de conhecimento do mundo das letras retira do menino o seu direito de ser, de ir e vir com dignidade.  A cegueira do outro desperta nele uma dignidade que está nos olhos e na reação dos que estão em volta dele. De um tiramos a dignidade, do outro a devolvemos, sem nem ao menos perguntar se ele precisa, se ele se sente ausente dela.

Um nos desperta medo e repulsa, mesmo diante do pedido de ajuda, o outro desperta nossa atenção e cuidado. Onde está a cegueira afinal? Para qual direção aponta? Olhos, cabeça, coração, pele, ação ou reação?

A resposta veio de uma criança de grandes olhos brincantes, sorriso aberto e alma desperta. No retorno para casa, também dentro de um veículo de transporte público, observo dois meninos brincando. Não me atento muito para o diálogo, sinto a energia do brincar somente. De repente, uma frase me chama atenção e novamente penso no menino do ponto de ônibus, nos rapazes a quem ele pediu ajuda, no moço que ajudou o outro cego em outro ponto da cidade e no próprio cego. Tudo se costurou e um sopro de luz retornou a mim “deus é maior que o diabo”. Não sei em que contexto a frase foi falada pelo garoto que brincava e não quero aqui entrar no mérito da espiritualidade.

Em meu íntimo foi uma resposta da vida para minhas reflexões. Deus é maior que o diabo, assim como o bem é maior que o mal. Deus pode ser entendido como o bem, ou a boa intenção ou ação. Assim como eu quis ajudar com acolhimento o menino, outras pessoas também o fariam ou o fizeram. Pensei na possibilidade de o menino ter chegado ao seu destino, por meio da ajuda de alguém que o fez por compadecer-se dele, ou por medo, ou imbuído de qualquer outra intenção. Mas o resultado positivo foi alcançado.

Positivo como a voz do homem cego e a atitude de quem o ajudou. Seguramente resiliente e em paz com seu destino, independente do falar catastrófico de senhoras que também ajudam, de uma maneira ou de outra.

Coincidentemente os personagens das cenas que vi e vivi são homens, inclusive a criança que respondeu aos meus questionamentos sem nem os conhecer. Coincidentemente o corpo de um homem foi encontrado dentro de um contêiner de lixo perto da minha casa e assunto “homens melhores para um mundo melhor” veio à conversa com vizinhos por motivos alheios aos já mencionados nesse texto.

A conclusão é que todos carregamos luz e escuridão e há nos homens, caminhos de escuridão no medo e na vergonha, mas há também caminhos de luz e esperança. Sigamos dispostos a ser luz aos outros, a ajudar mesmo que cegos pela escuridão.  O cotidiano nos reserva a cada olhar uma cena para leitura única mesmo dos analfabetos que aprendem no ver e no sentir e dos cegos que sentem e aprendem novas forma de viver. O que dirá para os que sabem ler e enxergam muito bem…

Mulher, teu nome é mãe

Estou aqui, em minha casa, hoje, a contemplar a minha casa de ontem. Nesta casa tem uma criança, fazendo pose para fotografias. Séria, não como sinônimo de tristeza, mas como pré-anúncio de charme.

Penso nessa criança com seu vestido rósea, de botões nas alças e um belo cavalinho branco de estampa…ah! não dá para deixar passar, o vestido é curto, e mostra as meais vermelhas semi-encobertas com botas brancas sensacionais!

 Olho pra essa criança de mais de quarenta anos atrás e vejo a ti, mãe. Te vejo na ternura dos meus olhos, na suavidade do meu despertar, na alegria do meu sorriso, no toque de minhas mãos firmes e na segurança do meu andar. Te vejo nas minhas palavras doces, no meu coração grande e na minha forma de amar. Te vejo ontem e te vejo hoje.

Te vejo e me descubro essência do teu ser, nobre, amável e fiel. Defeitos? Ah, tu tens! Também sou essência deles. Mas não quero chamá-los de defeitos e sim de pequenos ‘tilts’, bastam alguns ajustes e fica tudo bem.  Ao longo dos anos e das experiências os ‘tilts’ me ajudaram a construir e desconstruir castelos.  Acredite, eles foram e continuam sendo tão importantes para mim quanto às suas qualidades.

Não quero contabilizar as noites acordadas ao pé das camas quando adoecíamos, não quero falar sobre a dedicada atenção às tarefas escolares e similares, nem do colo quente e aconchegante sempre pronto para o próximo abraço. Muito menos quero fechar as contas dos ‘tilts’, dos diversos NÃO que levamos nas tentativas de fugas do ninho, dos puxões de orelhas e, apesar disso, do enorme respeito que tivestes às nossas escolhas.

Quero falar, sim, da essência que move você, desde sempre. Que te fez pensar, falar e agir para o bem, para o nosso bem. Mulher, tua essência é amor e teu nome é MÃE!

Pra minha mãe, em agradecimento pela vida dela, em agradecimento pelo pai maravilhoso que ela escolheu para nossa família, e por fim, em agradecimento por minha vida e a dos meus irmãos, ontem, hoje e sempre!

O masculino que há em mim

O masculino que há em mim é doce, tem timbre grave e voz melódica.

Possui mãos que falam, cujo toque é forte, abarca, e anuncia “vem comigo, confia, estou aqui”.

O masculino que há em mim é bem-humorado, sorri alto, gargalha, gargalha, mas gargalha mesmo, e conduz o sorriso à categoria que lhe é de direito, o aconchego.

O masculino que há em mim tem nervos de aço, mas passeia cambaleante na poesia de Noel, Cartola e tantos outros que cantam versos apaixonados para o eu feminino. 

Este ser que carrego e que se opõe a mim caminha leve entre as minhas angústias, dúvidas e mudanças; sem tropeços, rebate a agressividade feminina, que explode na busca por liberdade e pela separação dos opostos. Tolice, como se pudéssemos separar o côncavo e o convexo sem que um não se tornasse o vazio do outro.

O masculino que há em mim não é agressivo, é imponente. Não é orgulhoso, pelo contrário, faz-me senhora das minhas decisões.  Não concordamos sempre, afinal somos opostos. Mas sempre convergimos em direção à paz.

O masculino que há em mim tem quase 80 anos, mas já teve 5, 17, 25… e 37, quando fui ‘concebida’ e passamos a ser um só. O masculino que há em mim modela o meu pensar, e desde sempre me ajuda a ser plena – enquanto menina, amparava, ensinava, cuidava; e enquanto mulher aconselha-me, acompanha-me, admira-me.

Sou parte dele e ele parte de mim. Opostos inseparáveis, em tudo que faço e onde quer que eu esteja!

Ao meu pai João: o masculino que há em mim ao longo dos meus felizes 42 anos de vida e dos muitos que ainda virão.

A alma e o som

Fim de tarde. O pôr do sol coloria o céu azul de um laranja incandescente na pequena cidade de Floresta. No coração de Joana, a cor era outra. Indecifráveis sentimentos angustiavam o jovem peito dividido entre o partir e o ficar. Apesar de antagônicas, as opções representavam, naquele instante, intensas modificações no ser e existir da moça.

Tomar decisões aos treze anos deveria ser crime, acreditava a pequena órfã de olhos castanhos amendoados e cabelos de cachos cor de mel.  O pai da pequena costumava dizer que os cachos eram labirintos por onde desciam os pensamentos até se tornarem realidade. Que estranha imagem, era aquela. Às vezes quando tinha uma boa idéia, ou melhor, quando descobria uma nova maneira de enganar seus pais pra sair e “pegar emprestado” as laranjas da chácara vizinha, Joana corria para amarrar os cabelos. Não queria perdê-las.

Finalmente, a pequena esboçou um sorriso. Talvez tenha sido a lembrança da infância recente, roubando laranjas no vizinho, ou o modo como seu pai definia seus cachos…o fato é que agora ela havia se perdido no labirinto do destino. Amarrar os cabelos não alivia mais. Por que mudou?  Ah, como ela queria contar as verdades omitidas, rever o dedo da mãe apontado para cima…reclamando a traquinagem bem-sucedida, dizendo o que fazer, para onde ir, como se comportar…

Os pensamentos de Joana a distraíam, mas não a afastavam da realidade. Depois de cinco longos e, às vezes deliciosos, às vezes solitários, anos no orfanato, finalmente, a adoção. Imaginem, o desejo de cinco entre quatro crianças, – isso mesmo, cinco em quatro, até aquelas que não estão lá ainda, desejam sair sem nunca terem entrado.

Ficar até completar dezoito anos e viver por si mesma, ou partir e permitir que outros o façam, ou orientem seu destino, como seus pais faziam e fariam, se vivos.  Refletindo, a garota labirinto recordou o conselho de uma velha amiga, a senhora Alda. Negra, neta de escravos e sem filhos, como voluntária, lavava as roupas dos pequenos órfãos em dias de domingo. Conversar com Alda era ouvir histórias encantadoras, contos, poesias. Ela costumava dizer que eram sons da alma, somente. Nesse instante, caiu por terra a imagem do labirinto, dos cabelos e das idéias que escorregavam até ruir no chão ou no nada.  “Então minhas ideias, meus pensamentos, não vêm da cabeça e escorregam pelos cabelos? Vêm da tal alma? Perguntava Joana aos sete anos, provocando gostosas gargalhadas na velha senhora.

Com Alda, a menina descobriu que tinha alma, mas não conseguia ouvi-la, apesar dos esforços. Paciência, dizia a velha amiga, ela vai se manifestar quando você precisar.

Era o momento, então.  Joana esperava com ansiedade o som de sua alma. Há alguns anos, desde a morte feliz da lavadeira – sim, ela morreu feliz, acreditem.   Aos 90 anos, quite com a vida, com Deus e com a humanidade -, a menina não pensava tão obcecadamente em ouvir a própria alma.

E ouviu. Não foram respostas, como imaginara. Foram reflexões. Quais seus sonhos, o que buscas, o que te faz feliz? Pensou em cada detalhe de sua infância, nas laranjas, nas broncas, no amor de seus pais, nas perdas, no orfanato, em Alda…e na família que estava prestes a conhecer. O pôr do sol mantinha os olhos da pequena grudados no céu.  Ai, como ela queria que fosse o amanhecer, trazendo luz, conforto, esperança, tudo parece dar certo quando pensado no início do dia…, mas era à tarde, o fim, o surgir da escuridão! A angústia de Joana a impedia de ver beleza e o acalanto no fim daquela tarde de primavera.

O encontro estava marcado. Chegou a hora. Sentada no balanço improvisado no terraço do orfanato, Joana aguardava o senhor e senhora Matias. Não quis saber como eram, o que faziam, nem se tinham filhos. Sua curiosidade se resumia a uma única pergunta: por que cargas d’água um casal adotaria alguém com tanta idade? “É a primeira pergunta que vou fazer a eles”, pensou alto Joana, armada com o orgulho e medo.

Ana e Paulo Matias traziam sorrisos abertos e olhos humildes, que de imediato conquistaram a confiança da mocinha órfã. “Eles têm algo familiar”, sussurrou a alma de Joana. Após alguns minutos de silêncio a conversa entre os três fluiu. O medo cedeu lugar à compreensão e a alma de Joana emitia o som de satisfação. Como há muito não sentia. O peito apertou e a menina não conseguiu conter as lágrimas quando o senhor Paulo, com uma voz mansa, porém, altiva, mencionou a palavra filha…” filha”. A expressão surgiu em meio às risadas que provocadas pelo relato das histórias de infância, do roubo das laranjas e dos pensamentos perdidos no labirinto dos cabelos longos que se foram junto com seus pais.

Meses se passaram até a partida de Joana para o novo lar. Cada anoitecer agora trazia a certeza de um amanhecer com grandes expectativas. Paulo e Ana adotaram ainda duas crianças pequeninas. Joana tornou-se uma mulher segura.  A solidão e a insegurança desapareceram desde que ela começou a ouvir o som de sua alma e se permitiu ser feliz!

História e nomes fictícios

Parede Branca

Uma parede branca pode representar muitas coisas: um local limpo em uma casa nova, um local novo em uma casa velha; apenas uma cor, entre várias, utilizada para decorações clássicas de casas ou edifícios comerciais; um concreto pintado para tranquilizar os olhos da dureza cinzenta dos tijolos armados com cimento…

Mas sem dúvida, e quem tem experiência com crianças sabe, uma parede branca é um enorme espaço para expressão. Os pequenos registram riscos, rabiscos, desenhos, palavras, frases que indicam cores, sabores, gostos e desgostos. Como são sábios os pequenos.

As pinturas rupestres existem e nos contam como vivíamos antes da fala e da escrita. Elas representam as formas de expressão de quando nos abrigávamos em cavernas. Hábitos, costumes, relações, crenças, visões, opiniões, medos e desejos. Construímos parte de nossa identidade ancestral por meio dessas manifestações.

Hoje não vivemos em cavernas, exercemos a fala e a escrita, desenvolvemos tecnologias para expressarmos pensamentos, ações e sentimentos, entre elas, a arte, representada pela fotografia, pintura, dança (apesar de também ser ancestral) e teatro, por exemplo, e os meios de comunicação como rádio, tv e internet, todas ferramentas de uso coletivo, indicando o quanto é importante compartilhar para evoluir.

Toda e qualquer forma de manifestação humana é uma ferramenta tecnológica capaz de transmitir ou expressar saber, que de acordo com o contexto e utilidade faz perpetuar a própria existência. E começamos cedo, muito cedo a utilizá-las. Lembro dos meus primeiros rabiscos na parede branca de casa, bem como as primeiras broncas por sujar o local. Faz parte, sem traumas. Lembro também de como passava o corpo de pele negra com força naquela parede pedindo para ter a cor dela e com isso tornar-me parecida com minha mãe e irmã, minhas primeiras referências femininas. Querendo pertencer, afastava-me de mim. E a parede branca era o instrumento que refletia aquela busca por identidade.

Os anos passaram, muito foi vivido, visto, discutido, refletido e mudado. Lembro do episódio até com graça, havia um drama que eu gostava de assumir e a parede branca era um objeto da produção artística, compondo a cena com protagonismo ímpar. Marca de mãos e pés, tela para sombra do corpo à luz de velas quando faltava energia…a parede branca soa para mim hoje como um espaço lúdico, um convite a criar e expressar, imprimir ou transformar a nossa essência.

Saímos das cavernas e construímos moradas individuais, mas ainda necessitamos da vivência coletiva e do aperfeiçoamento das ferramentas de comunicação, desde o corpo, passando por todos os sentidos: fala, audição, tato, olfato e paladar, até os instrumentos que criamos para tal, como o mais cobiçado e polêmico deles, a internet. Todos se inserem em uma gigantesca parede branca, capaz de receber toda a diversidades de cores que nossa existência emana.

“Parede Branca” é esse espaço composto pelo nada e pelo tudo que vem a partir do nada, inclusive do que se copia, do que se reinventa, do que diz tudo e do que nada diz. Só é, simplesmente existe para a singular mistura de que se sabe, do que se conhece, e por que não, do que se deduz saber, ver ou conhecer.

Minha parede branca não começa agora, e tudo que escreverei aqui já faz parte dela. O que ela quer é expandir, criando e recriando para partilhar. E ainda que ela mude de cor, continuará sendo uma parede branca, um espaço para eterna construção do eu em nós, ou melhor, do eu que somos nós.