Pela manhã, encostei no ponto do ônibus como de costume. Os dez minutos de espera me proporcionaram cenas amistosas como dois amigos conversando animadamente sobre mulheres, nem tom, nem palavras agressivas. A distração da espera foi interrompida com a chegada de um adolescente, 15, 16 anos no máximo. Um menino de chinelos, bermuda no joelho e camiseta folgada. Tinha um papel em mãos e olhar perdido.
Olhava de um lado e do outro, procurando encaixe entre os que ali estavam. A aparência dele e sua cor de pele o colocava no rol de suspeitos da marginalidade no padrão sociedade hipócrita e ignorante na qual me insiro. O primeiro pensamento é “ai meu Deus, será que ele tá procurando um celular para furtar”. O pensamento logo desapareceu quando ele se aproximou de um rapaz e perguntou “passa ônibus do Cruzeiro aqui?” “Cruzeiro? Sim, passa”, “Quando passar o senhor me avisa?”
Eu estava bem perto dos dois, mas parecia invisível. Por alguma razão, ele não se dirigiu a mim para pedir ajuda. E pensei que, talvez, ele já tivera sido rejeitado por mulheres em situações parecidas. Somos mais vulneráveis à violência e em muitos casos, recuamos rapidamente de aproximações suspeitas. Foi meu primeiro momento de compaixão. Percebi que apesar das roupas e da postura indicarem agressividade, seus olhos e seu tom de voz, indicavam uma passividade constrangedora.
O rapaz para quem ele pediu ajuda, seguiu seu destino. Entrou em um ônibus e não disse uma palavra ao menino. Nada do tipo “olha meu ônibus chegou, não é Cruzeiro. Vou embora, veja se outra pessoa pode te ajudar”, assim com outras palavras, uma satisfação seria muito bem-vinda. O menino reagiu com um desespero contido, o olhar dele se dividiu entre buscar o rapaz que prometeu ajuda, os ônibus que se amontoavam no ponto e as pessoas que ficaram. Imaginei a solidão dele naquele momento e senti compaixão pela segunda vez.
Estava quase me aproximando dele, quando ele novamente se dirigiu ao outro rapaz, o que conversava com o primeiro, minutos antes, e fez as mesmas perguntas sobre o ônibus e o mesmo pedido sobre o aviso. Fiquei angustiada, não por ele não pedir ajudar a mim, mas porque tardiamente caiu a ficha ‘ele não sabe ler’.
Sua voz tinha uma vergonha que ia
muito além de alguém que não quer incomodar, era uma vergonha como a de não se
sentir pertencente àquele lugar e ao mesmo tempo precisar tanto dele. Lugar
entendido como ambiente (um ponto de ônibus), lugar enquanto grupo social, e
lugar enquanto pessoas. Senti vontade de chorar. Meu ônibus chegou e segui meu
caminho para mais um dia de trabalho.
No caminho, refleti sobre muitas coisas, pensando naquele menino e de como eu o ajudaria se permanecesse no ponto de ônibus. Torci, recolhida na minha invisibilidade, para o ônibus do Cruzeiro passar antes do meu para que eu pudesse indicá-lo e ainda lhe dar um sorriso, olhar de alguém que confia nele. Pequenos gestos que ele não teve de nenhum dos rapazes com quem falou. Pelo contrário, o olhar deles era duro, desconfiado, quase um pedido para se afastar e um “eu aviso, mas preferia que você se virasse”. Talvez o fato de que o rapaz não soubesse ler nem tenha passado pela cabeça deles. Afinal, julgamos e o primeiro julgamento é “esse cara tá se aproximando para tirar vantagem, vou ficar esperto”.
Mas não tive essa oportunidade e
fiquei quase que durante todo o trajeto de 20 minutos pensando em como a
violência surge no comportamento das pessoas. Em como a dor de não saber ler
pode se transformar em violência, porque ela é o grito de quem não argumenta,
ou de quem não é compreendido, ou para quem tudo falta, principalmente, a
atenção, o respeito, a dignidade.
Como o Estado falta e falha e como somos reprodutores dessa ausência. O pensamento naquele menino e a falta de informações sobre o seu destino sumiu quando outra cena surgiu. Já no último trecho da minha viagem ao trabalho, um homem para o veículo e pede informações para ajudar um homem cego a pegar o ônibus. O homem cego é simpático, entra agradecendo, falando em bom tom e com segurança.
É um homem jovem que ao sentar-se troca algumas palavras com uma senhora que o ajudou a sentar e puxou assunto. Na conversa diz que perdeu a visão total há pouco mais de 4 anos ao manusear, sem cuidados, soda cáustica. Compadecida, a senhora fala de “deslizes” da vida e começa a contar causos desastrosos de outros “deslizes”. O rapaz foi simpático, mas acho que a conversa não estava agradável, afinal, em vez de motivadora e resiliente, a senhora mais parecia um bedel a dizer “As pessoas não se cuidam, olha o resultado”.
A conversa com a senhora só serviu para matar minha curiosidade em saber como ele havia ficado cego, pois sua desenvoltura e segurança ao entrar no ônibus e passar pela roleta era de alguém que já havia visto a cor do mundo. O que, de fato, me fez mais uma vez refletir sobre o menino analfabeto do ponto de ônibus e a coincidência de encontrar cenas tão semelhantes em poucos minutos das primeiras horas da manhã.
Ambos pediram ajuda, ambos estão
cegos. Um dos olhos, o outro da alma. Para ambos as oportunidades serão
restritas, mas a falta de luz dá aos dois caminhos opostos. A falta de
conhecimento do mundo das letras retira do menino o seu direito de ser, de ir e
vir com dignidade. A cegueira do outro
desperta nele uma dignidade que está nos olhos e na reação dos que estão em
volta dele. De um tiramos a dignidade, do outro a devolvemos, sem nem ao menos
perguntar se ele precisa, se ele se sente ausente dela.
Um nos desperta medo e repulsa,
mesmo diante do pedido de ajuda, o outro desperta nossa atenção e cuidado. Onde
está a cegueira afinal? Para qual direção aponta? Olhos, cabeça, coração, pele,
ação ou reação?
A resposta veio de uma criança de grandes olhos brincantes, sorriso aberto e alma desperta. No retorno para casa, também dentro de um veículo de transporte público, observo dois meninos brincando. Não me atento muito para o diálogo, sinto a energia do brincar somente. De repente, uma frase me chama atenção e novamente penso no menino do ponto de ônibus, nos rapazes a quem ele pediu ajuda, no moço que ajudou o outro cego em outro ponto da cidade e no próprio cego. Tudo se costurou e um sopro de luz retornou a mim “deus é maior que o diabo”. Não sei em que contexto a frase foi falada pelo garoto que brincava e não quero aqui entrar no mérito da espiritualidade.
Em meu íntimo foi uma resposta da vida para minhas reflexões. Deus é maior que o diabo, assim como o bem é maior que o mal. Deus pode ser entendido como o bem, ou a boa intenção ou ação. Assim como eu quis ajudar com acolhimento o menino, outras pessoas também o fariam ou o fizeram. Pensei na possibilidade de o menino ter chegado ao seu destino, por meio da ajuda de alguém que o fez por compadecer-se dele, ou por medo, ou imbuído de qualquer outra intenção. Mas o resultado positivo foi alcançado.
Positivo como a voz do homem cego
e a atitude de quem o ajudou. Seguramente resiliente e em paz com seu destino,
independente do falar catastrófico de senhoras que também ajudam, de uma
maneira ou de outra.
Coincidentemente os personagens
das cenas que vi e vivi são homens, inclusive a criança que respondeu aos meus
questionamentos sem nem os conhecer. Coincidentemente o corpo de um homem foi
encontrado dentro de um contêiner de lixo perto da minha casa e assunto “homens
melhores para um mundo melhor” veio à conversa com vizinhos por motivos alheios
aos já mencionados nesse texto.
A conclusão é que todos
carregamos luz e escuridão e há nos homens, caminhos de escuridão no medo e na
vergonha, mas há também caminhos de luz e esperança. Sigamos dispostos a ser
luz aos outros, a ajudar mesmo que cegos pela escuridão. O cotidiano nos reserva a cada olhar uma cena
para leitura única mesmo dos analfabetos que aprendem no ver e no sentir e dos
cegos que sentem e aprendem novas forma de viver. O que dirá para os que sabem
ler e enxergam muito bem…