É, você chegou e tudo parecia permanecer no mesmo lugar. Festas, fogos, desejos sinceros de paz, amor, dinheiro no bolso…carnaval, todo mundo na rua, brincando, bebendo, dançando, confraternizando. A violência, os assaltos, as vozes uníssonas por respeito às minas, aos minos que são minas e às minas que são minos e a todos os corpos que são minas e minos, respeite o NÃO, respeite o outro.
Mais uma festa popular como só o Brasil sabe fazer, em todos os cantos e em diversos tons e modalidades, inclusive religiosas e silenciosas. Havia mais do que nunca a vontade de tomar às ruas diante do receio de que a festa fosse proibida, podada pela nova ordem política conservadora que se estabeleceu aqui nos trópicos da América do Sul.
Fomos às ruas e a alegria estava lá. Os abraços, os beijos, a música, a dança, a poesia, o rebolado para todos os gostos e liberdades. Tudo igual, até os protestos políticos e sociais, afinal é carnaval e quem conhece a história sabe que essa folia é, desde o seu início, um grito social, uma expressão de liberdade, um coletivo espontâneo de criatividade, com cores, sabores, amores, corpos e sentidos, reverberando alegria ricamente compassada.
Carnaval, e o que viria depois? Terminada a folia, retomaríamos nossa rotina cronológica do seu tempo, 2020. Mas outros planos se fizeram imperiais. Antes da chegada de Momo, uma notícia vinda de longe, rumores distantes de um novo vírus na China, um tipo de Corona. Achávamos que o problema seria pontual, de uma cidade, em um país distante. Brasileiros que moravam nessa cidade, foram trazidos de volta, ficaram isolados, em quarentena.
Enquanto os observávamos, torcendo para que estivessem bem, enquanto olhávamos pelo buraco da fechadura (nós e outros iguais a nós), o vírus abria janelas e portas pelo mundo afora. Aeroportos, portos, fronteiras terrestres…rapidamente atingiu o mundo todo. Nenhum dos brasileiros espiados em quarentena foi diagnosticado positivo para Covid-19, doença causada pelo novo vírus.
Respiramos aliviados e apreciamos a folia despretensiosamente. Março chegou e a cada dia que passava, mais perto de nós o corona vírus chegava. E logo se instalou sem que identificássemos mais de onde e como se deu o contágio. E tudo está interrompido: atividades escolares presenciais, comércio, shows, cinema, teatro, academias, cultos religiosos, qualquer atividade que gere aglomeração de pessoas. A ordem é ficar em casa.
Nada de abraços, beijos, o simples dar-se às mãos é um risco à saúde. Entramos em abril e as orientações de distanciamento social continuam. Médicos e cientistas correndo contra o tempo para encontrar tratamento para a doença e vacina contra o vírus. O número de doentes e mortos continua crescendo e a perspectiva é de alguns longos meses nesse ritmo, ou pior. O vírus causa complicações pulmonares graves e o sistema de saúde não comportará se todos adoecerem ao mesmo tempo, ou seja, muitos mortos por falta de atendimento, ou equipamentos médico-hospitalares. O mundo todo se curva a essa realidade.
O peito dói, falta-nos ar, de fato. Enxergamos refletidos no medo a nossa precariedade como seres humanos e os erros das nossas escolhas políticas, sociais e econômicas. Tudo vem fortemente exposto na espiral do tempo. Na sua espiral, 2020.
Fiz alguns pedidos a ti, lembra? Pedi que fosse forte, que ampliasse nossas virtudes, que fizesse com que nos reconhecêssemos como irmãos. Pedi também que ampliasse a nossa capacidade de sermos um em todos e todos em um. E o fizeste. Bem cedo, aliás. O ciclo anual que nos apresenta é desconhecido, tudo saiu do lugar e cada um está reagindo como de fato é, ou como pode ser. E, talvez, novas formas de convivência, estilos de vida e valores surjam a partir desse momento. Acho que esse é um pedido seu.
Continuo desejando que seja feliz, 2020. Você foi bem-vindo, chegou e teremos que lidar contigo com a mesma intensidade, porém com mais reflexão, empatia, senso de responsabilidade social, cuidado consigo e com o outro, o próximo e o distante. Cuidado com a natureza, que tanto nos ampara e alivia, permitindo que simplesmente respiremos, leve ou profundamente, distraída ou conscientemente.
Por enquanto, já deixastes lições importantes. Do básico da higienização, passando pelo reconhecimento da necessidade de um sistema de saúde eficiente e para todos, pela importância da ciência e da comunicação, até a percepção de que uma guerra, com toda sua devastação, pode ser contra algo invisível e não bélica. O invisível, aliás, é a tônica desses dias e a lição do afeto o maior desafio da humanidade.