O tempo diz
O abraço que não dei
O tempo me trouxe um recado
Apontamento de encontros negados
De abraços não dados
E o beijo apenas sonhado
Os afetos perdidos
Na cronologia do dia a dia atarefado
No egoísmo das horas que sugam a existência
E o querer
O tempo vem lembrar
Da alegria não permitida
Da liberdade tolhida
Da dor mal sentida
Que o sorriso sem graça fez desparecer na roda das ilusões
O tempo vem dizer em alto e bom som
Que as lembranças são resquícios de um tempo que insiste em faltar
Que as escolhas que fazemos constroem o tempo que temos
Ainda há tempo?
Tempo de sobra
Sobra de tempo antigo abrindo tempos novos. Resta tempo para um novo tempo?
Novos tempos
Menina morena
De gestos faceiros
De passos maneiros
Que encanto o meu ser
Que acorda manhosa
E esquece o fazer
Que brinca de corda
Que nina a boneca
Mas não esquece o dever
Menina morena
Tu és esperança
No mundo de sonhos
Com outras crianças
Construir o melhor
De sorriso aberto
Expressão serena
Em rosa menina
A vida lhe traçar
Para ser semente
Que transforma o sonho
Em roda do amor
Menina morena
Pedaço do meu ser
De todas as morenas
Que encantam a vida
A mais bela é você.
Autora: Leni Borges Pires Nonato, minha mãe!
Preciso aprender a viver sem você
Sem as suas conversas, sem a sua voz, sem o seu cheiro
Sem a sua atenção, já há tempos tão escassa
Preciso aprender a viver sem você
Sem os meus medos, sem as minhas expectativas, sem a minha dor
Preciso aprender a viver sem você
Sem seu corpo, sem seu braço, sem seu abraço
Sem seu sorriso, sem sua face, sem seus olhos nos meus olhos
Preciso aprender a viver sem você
Sem a minha esperança, sem a minha ansiedade, sem o meu desejo
Sem o melhor e o pior de mim
Preciso aprender a viver sem você
Sem as suas manias, sem o seu acordar, sem o seu relaxar em mim
Preciso aprender a viver sem você
Sem o meu prazer, sem a minha alegria, sem o meu calcanhar
Sem a minha guerra e paz de amor, sem a minha contraditória forma de amar
Preciso aprender a viver sem mim
Sem nós, sem o que levou de mim em você
Preciso aprender a viver em mim
Agora, que estou sem você
Pessoal e possessivo
Eu quero, tu queres
Eu peço, tu negas
Te procuro, tu foges
Nós? Perdemos…
Tempo, destino, união, separação, vida
Meu corpo, teu corpo
Minha voz, teu chamado
Sua teimosia, meu pecado
O sim e o não
Juntos, em compasso
Entre mim e você
O nosso descompassado silêncio
A pausa sentida
Ditando o indecifrável sentimento
Das palavras caladas
Não venhas mais a mim,
Ou toma-me,
Não alimente meus sonhos,
Ou a vós, somente a vós, serei terna
O seu amor no meu destino
Único caminho pra nossa felicidade.
O dia depois de ontem
Perdi.
Quero trocar a pele,
o respirar, o olhar.
Quero trocar o cabelo,
as roupas, as idéias,
o pensamento.
Quero trocar o coração
Esse, então, sofre de um déficit de válvulas!
O sangue não circula, e o ar,
Preso aos pulmões,
Torna a visão turva; os olhos lacrimejantes e doídos.
A dor de ver o que existe e está em falta,
A dor da abundância vista e da inexistente visão.
O que aqui, dentro do peito estava, e que tanto saltava aos olhos,
Não está mais. Foi-se,
é passado. E mais uma vez um fim.
O fim de um início que à beira do meio
Perdeu o fôlego.
Ah! Vago coração…
Preciso de um novo, forte, feliz.
Com abundância de amor e falta de saudade
Para os olhos voltarem a ver o que existe, e me chama
Em algum lugar, para qualquer lugar!
Vida
Vida mal vivida
Vida mal vida
Vida malvada
Vida não vida
Vida mal vi vida
Vi vida mal
Mal vi vida
Vida vi em vida
Vida vi vivida
Ah, ah, ah, ah…
A vida é um sopro…o…o..o
…um suspiro…
…cessa quando o fôlego acaba.
Falar é melhor do que calar?
Dias há nos quais me enxergo de frente: te vejo metade em mim, metade além
Antes um sorriso e a certeza de que o mundo era o meu.
Depois a triste desilusão
Não estás mais aqui do meu lado
Não te sinto nem perto
Não, não, somente não
Sim, sim, tudo sim
Eu e o caminho
Só, talvez sim, talvez não
O tempo e eu.
Quatro anos. Quarenta anos
Tempo relativo
Tempo absoluto
Verdade relativa
Verdade absoluta
Onde está a razão?
Em que trincheira se encontra a emoção?
Perdida em questionamentos
Perdida entre tempos e verdade.
Vida relativa
Absoluta vaidade
Somos ou parecemos ser
Completos: nunca
Incertos: talvez
Vivos: sempre!
Rio de abril
Abril de passos
Passos firmes, passos fortes
Passos rápidos
Rápidos no tempo, fortes no espaço, firmes no pensamento
Pensamento que para, anda, voa
Voa no mar, voa nas montanhas, voa no céu limpo e azul
Azul da saia, blusa e vestido; azul cor da temperança, cor da amizade
Amizade de grupo, de afins, de passos
Passos de montes, montanhas, rochas, passos de abril
Abril de rio, Rio de abril!
Há vagas
Braços vazios
Apressados
Coração cheio
Bate lento, compassado
Música triste
Melodia repetidas vezes
Batidas, cansadas
Vagas!
Vagas abertas
Espaços vazios
Vazio espeço de corações
Cheios, vazando, vazando, vazando
Vazio vazando vagas.
Eu comum
Uma pessoa comum
Pensamentos comuns
Entre tantos comuns
Entre tantos passos
Indo e vindo
Ligeiros, compassados
Nada de rostos
Apenas sensações
Por um instante, felicidade
Sonho, devaneio
Vai depressa, corre
Para onde, por que
Te sigo, te sonho
Sonho comum de muitos seres em comum
O meu comum
O comum de muitos em mim
O eu comum!
Numa tarde incomum entre os comuns, ou vice-versa.
Perguntas
Que estranha força nos move
Se tudo o que há de moderno nos impõe a inércia?
Conversamos, pagamos contas e até o sexo:
Via digital, aparelhos eletrônicos…
Que estranha força nos mantém de pé
Se a gravidade nos atrai para baixo, para o chão, para o centro
Para o interior da terra
Ainda que estejamos inertes, onde vamos parar?
Em que realidade ou mundos e distâncias?
O depois de amanhã é hoje? Ou ontem? Ou amanhã?
Dias vão, dias vêm e tudo parece igual. Até quando?
Trinca de amor, três caminhos. Para onde andar?
Onde andará o meu amor?
Andará leve, sorridente, amigo?
Ou andará triste…também à espera, desanimado, ‘desamado’?
Andará livre ou (mal) acompanhado?
É meu, de fato?
Espero a espera, ou vago dobrando a esquina, a quadra, a rua, o rio…
Em que curva do lago andará? Ou seria nadará?
O amor está em toda parte, eu vejo. Às vezes longe, às vezes ao lado.
Não o encontro, não esbarro nem de longe, em suspiros.
O amor há, andará aqui e ali. Se é meu, já não sei
Onde andará, quem saberá?
Andará…
Andará, tempo mais que perfeito para encontrar
Tempo pretérito que nada faz almejar, além do desejo de achar
Eu quero, eu acho, eu tenho
Presente, presente, presente
Onde ANDA o meu amor?
Prefiro assim, no tempo presente, sempre inesgotável, palpável
Por isso, possível, perto
Dentro de mim.
Onde …
Dentro aqui, queimando
Buscando encaixe de corpos, braços e abraços
Errôneo? Vadio? Vão? Ardil?
Amor de amor
Amor de corpos
Amor de otários
Onde andará? Que corpo tocará?
Amor de cheiros
Amor de desejo
Amor de beijo
Amor de toques
Amor de estoques
Sobra amor?
Amor de sobra
Amor de falta
Falta amor?
Amor de amores
Amor de amados
Amor presente, vibrante
Amor de amantes.
Andará? Onde? Como? Por que anda?
Por que não para?
Para o amor
Para!
Qual a cor do silêncio?
O que é o silêncio? Ausência de som? Ou o que eu escuto quando o barulho é ensurdecedor?
Vem de mansinho? Ou me agride com a estaca da solidão?
Silêncio de um, uns ou de muitos enlouquecidos na multidão, surdos a ouvir o inaudível discurso dos que gritam alto e mais alto…
Há o silêncio de quem quer falar e o silêncio de quem quer ouvir
Silêncio de quem não pode falar e o silêncio de quem não pode ouvir
Silêncio de quem pode e cala
Silêncio de quem, calado, fala mais, berra alto, grita.
Para cada silêncio, um sentido
Sentido de sabor, toque, cheiro e visão…sentido de existir
Existir em cores, várias, semelhantes, antagônicas.
Cor de ação, de ver, de sentir
Sentido silêncio
Ver…
MelhoR…Coração!