Por um instante

Fecho os olhos. Sinto o forte vento fresco e o sol de agosto na minha pele. O som e o cheiro do mar em uma tarde na varanda de madeira de uma casa em Atalaia. Piso a areia morna e sigo em direção a água. Também é morna. O mar de fim de tarde é agitado. A maré quer e vai subir. Para repousar precisa se expandir. Então as ondas se encontram, entrecruzam, à direita, à esquerda, à frente. Brincam até cansar, até (des)cansar.

Brinco com elas. A água salgada em contato com minha pele quente arde leve e repousa, penetra nos poros, vasos e coração. Dos pés à cabeça passeia em perfeita sintonia, provocando circuitos, emanando energia que retorna ao mar e do mar volta para mim. Trocamos, levo o balançar das águas e o sal comigo, deixo pele, sorrisos e gratidão com ele. A noite cai.

Retorno, abro os olhos. O mesmo sol de agosto na pele, céu azul e um vento fresco vem me visitar em uma manhã na varanda de vidro de um apartamento de uma cidade sem praia. Piso no porcelanato frio, poucos passos e o corpo procura por trocas. O vento provoca. Ora forte, ora leve, ora longe. Passeia, brinca até cansar, até (des)cansar.

Sem nuvem, o sol não descansa. Mas o contato com a minha pele é profundo. O calor entra provocando circuitos e curtos. Um pássaro, não sei identificar qual, canta, chama…será se conversa comigo? Será que lamenta tanto concreto em volta?

Meus olhos o seguem, minha mente brinca com ele. Brinca até cansar, até perdê-lo de vista e (des)cansar.  Fecho os olhos novamente. Não há areia, não há mar, não há vento a beijar-me a face. Abro os olhos e procuro desesperadamente esse lugar. O pássaro…o sol também já não há.

Resta o espaço quadrado de uma varanda de vidro. Fria, silenciosa, solitária. Não preciso mais fechar os olhos. A luz apagou, mas tudo continua visível dentro e fora daquele lugar. Do lugar que cada um constrói para manter-se firme. Dos pés à cabeça, circuitos vibrando em curtos espaços de sentir.

Sinto agora o cheiro de comida chinesa, talvez o cheiro de carne queimando no óleo. Pode ser qualquer tipo de comida. E pode vir de qualquer lugar de fora. Fecho os olhos. Respiro fundo. Sim, estou com fome. 

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