…e o corpo era de um cachorro

Um alívio. Não que um cachorro morto jogado em contêiner de lixo não incomode, afinal, além de não ser o descarte correto para o corpo do animal, ele também pode ter sido atropelado ou morto por maldade, mas não posso deixar de dizer que senti alívio por não ser o corpo de homem.

Na tarde da descoberta do corpo, a informação se espalhou na quadra e a curiosidade e perplexidade tomaram conta das conversas. E os personagens do fato tomaram protagonismos diferentes, desde os policiais que atenderam a ocorrência até a figura extrovertida do manobrista do comércio da região, a reação de cada um provocou em mim uma curiosa observação.

Mulheres na porta da loja

Ao andar pela quadra logo percebi o movimento, a presença dos policiais e alguma tensão. Achei logo que se tratava de um assalto. Aproximei-me de um grupo de mulheres e antes de perguntar o que havia acontecido, uma delas me olhou e disse “achamos um corpo no lixo”. E explicou que uma outra mulher foi jogar o lixo no contêiner e percebeu o mal cheiro. Movimentou um saco volumoso e logo disse que era o corpo de ‘gente morta’.

Assustada, só consegui pensar em como alguém colocaria um corpo em um contêiner de lixo sem ser percebido. Sim, porque o caminhão de lixo passava todos os dias pela manhã, portanto, os garis teriam notado e eles mesmos chamado a polícia ou o corpo seria triturado pelo veículo sem perceber. Mas a reflexão foi estancada pela convicção das mulheres e a tensão dos policiais.

Policiais

Eram dois, um homem e uma mulher. O homem andava nervoso, falava que as mulheres teriam que ir até a delegacia para depoimento. Elas se recusavam. O policial pouco explicava o porquê, preferiu se exaltar e fazer valer seu poder ‘de farda’, do tipo ‘eu falo e você obedece’. A proprietária da loja já disse que não poderia sair e se recusou. Ele então se voltou para uma funcionária, uma mulher de meia idade, com trajes simples. Ela também não queria ir, decisão tomada com a força da empregadora que discutia com o policial o fato de ela não ser obrigada a ir até a delegacia. “Eu preciso de testemunha. A senhora viu o corpo. E tem que me acompanhar até a delegacia. Se não os peritos não vêm aqui e vocês vão ficar com esse corpo, fedendo aí…”, dizia o policial em tom agressivo. “Quem ligou para polícia?”, alguém preguntou. “Foi ela, respondeu o policial apontando para uma senhora que falava ao celular, mas confirmava ir até a delegacia. “Então, pronto, ela que ligou, ela que vá”, disse a proprietária da loja. E o policial continuava insistindo com a empregada da loja, em tom ameaçador pediu para a policial que o acompanhava anotar o nome e a identidade dela.

Com medo, a senhora resolver concordar e ir junto.

‘A policial que o acompanhava’, falo assim porque o papel dela foi silencioso. Só fazia o que era ordenado pelo colega homem. Nem se aproximou para convencer as mulheres a irem para delegacia. Pensei, da duas uma, ou é alguém que se endureceu com a profissão e concordava com a abordagem, ou alguém que oprimida pelo machismo cotidiano resolveu se omitir, mesmo vendo mulheres acuadas pela abordagem. Ela não se manifestou ou faz coisa alguma.

Duas mulheres brancas

Enquanto o policial, um homem alto, pardo, alguns diriam de pele morena, outros negro, constrangia a mulher negra, que trabalhava na loja, a ir até a delegacia (na verdade, aquilo era quase coação), duas mulheres brancas se aproximaram. Não eram moradoras da quadra, estavam em uma das lojas do comércio local. Na tentativa de amenizar o clima tenso, disse às mulheres, coagidas pelo policial, que era só um depoimento, que não aconteceria nada com elas. “meu irmão é policial, não precisa ter medo, ele só quer que você vá a delegacia testemunhar”.

“Eu também tenho policial na família, e conheço bem como eles são”, disse outra senhora na porta da loja, de braços cruzados, voz firme e uma das que mais aconselhavam a amiga coagida a não ir à delegacia”

De repente, o corpo encontrado não era mais o foco dos meus pensamentos. Tentei ajudar, quase me oferecendo para ir à delegacia junto. Lembrei que não tinha almoçado ainda e logo a senhora concordou em ir e aquela discussão foi cessada.

O corpo no contêiner

Não quis me aproximar do contêiner, mas o mal cheiro estava mesmo forte. Com o acordo de levar as mulheres à delegacia para agilizar a presença de peritos fechado, segui em direção ao restaurante para almoçar. E lá, encontrei o manobrista da quadra comercial. Ele estava em dúvida se iria ou não ver o corpo. Perguntei se ele já tinha almoçado. “Não, melhor não ir lá, depois não consigo almoçar”, disse ele.

Depois de alguns minutos ele retorna e diz que não conseguiu ver porque a policial estava lá e tinha isolado a área, ninguém se aproxima.

Fui para casa e durante toda a tarde, só ouvi silêncio.

O manobrista

Passando novamente pelo local onde haviam encontrado o suposto corpo de um homem, encontrei o manobrista e, curiosa com o desfecho do fato, conversamos por alguns minutos. Ao me aproximar, ele logo anunciou: ‘mulher, o corpo era de um cachorro. Olha aqui a foto”. E contou empolgado a operação policial da tarde.

“Fecharam a rua, tinha viatura de polícia pra todo lado. A polícia inteira do DF tava aqui.  Só de helicóptero, eram 3. Corpo de bombeiro, até o delegado veio. O perito entrou no contêiner e logo balançou a cabeça. Quando vi ele balançando a cabeça já vi logo que não era o que a gente tava pensando”.

Em questão de segundos, todo mundo entrou nas viaturas e saiu, segundo o relato. Saíram todos com as respectivas vergonhas. “Despreparados”, carimbou o manobrista.

Eu, por dentro, um misto de sensações. Aliviada por não se tratar de um crime contra a vida humana, triste pela morte e descarte de um cachorro no lixo, satisfeita pela lição de vida dada ao policial arrogante e ao mesmo tempo, me divertindo com o relato eufórico do manobrista. Moro ali, passei a tarde inteira em casa e não ouvi nenhum sinal da presença de helicóptero ou barulhos de viaturas policiais. Acho que a operação foi bem menor do que ele anunciara. Mas não questionei. Quem conta um conto tem licença para aumentar um ponto.

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