Parede Branca

Uma parede branca pode representar muitas coisas: um local limpo em uma casa nova, um local novo em uma casa velha; apenas uma cor, entre várias, utilizada para decorações clássicas de casas ou edifícios comerciais; um concreto pintado para tranquilizar os olhos da dureza cinzenta dos tijolos armados com cimento…

Mas sem dúvida, e quem tem experiência com crianças sabe, uma parede branca é um enorme espaço para expressão. Os pequenos registram riscos, rabiscos, desenhos, palavras, frases que indicam cores, sabores, gostos e desgostos. Como são sábios os pequenos.

As pinturas rupestres existem e nos contam como vivíamos antes da fala e da escrita. Elas representam as formas de expressão de quando nos abrigávamos em cavernas. Hábitos, costumes, relações, crenças, visões, opiniões, medos e desejos. Construímos parte de nossa identidade ancestral por meio dessas manifestações.

Hoje não vivemos em cavernas, exercemos a fala e a escrita, desenvolvemos tecnologias para expressarmos pensamentos, ações e sentimentos, entre elas, a arte, representada pela fotografia, pintura, dança (apesar de também ser ancestral) e teatro, por exemplo, e os meios de comunicação como rádio, tv e internet, todas ferramentas de uso coletivo, indicando o quanto é importante compartilhar para evoluir.

Toda e qualquer forma de manifestação humana é uma ferramenta tecnológica capaz de transmitir ou expressar saber, que de acordo com o contexto e utilidade faz perpetuar a própria existência. E começamos cedo, muito cedo a utilizá-las. Lembro dos meus primeiros rabiscos na parede branca de casa, bem como as primeiras broncas por sujar o local. Faz parte, sem traumas. Lembro também de como passava o corpo de pele negra com força naquela parede pedindo para ter a cor dela e com isso tornar-me parecida com minha mãe e irmã, minhas primeiras referências femininas. Querendo pertencer, afastava-me de mim. E a parede branca era o instrumento que refletia aquela busca por identidade.

Os anos passaram, muito foi vivido, visto, discutido, refletido e mudado. Lembro do episódio até com graça, havia um drama que eu gostava de assumir e a parede branca era um objeto da produção artística, compondo a cena com protagonismo ímpar. Marca de mãos e pés, tela para sombra do corpo à luz de velas quando faltava energia…a parede branca soa para mim hoje como um espaço lúdico, um convite a criar e expressar, imprimir ou transformar a nossa essência.

Saímos das cavernas e construímos moradas individuais, mas ainda necessitamos da vivência coletiva e do aperfeiçoamento das ferramentas de comunicação, desde o corpo, passando por todos os sentidos: fala, audição, tato, olfato e paladar, até os instrumentos que criamos para tal, como o mais cobiçado e polêmico deles, a internet. Todos se inserem em uma gigantesca parede branca, capaz de receber toda a diversidades de cores que nossa existência emana.

“Parede Branca” é esse espaço composto pelo nada e pelo tudo que vem a partir do nada, inclusive do que se copia, do que se reinventa, do que diz tudo e do que nada diz. Só é, simplesmente existe para a singular mistura de que se sabe, do que se conhece, e por que não, do que se deduz saber, ver ou conhecer.

Minha parede branca não começa agora, e tudo que escreverei aqui já faz parte dela. O que ela quer é expandir, criando e recriando para partilhar. E ainda que ela mude de cor, continuará sendo uma parede branca, um espaço para eterna construção do eu em nós, ou melhor, do eu que somos nós.

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